Memorial resgata dignidade de professores(as) do ex-Território de RO - Por Daniel Pereira

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Cai a tarde deste dezoito de setembro de 2026 e aqui me encontro, debruçado sobre a papelada e os papéis da professora Ivone Deunizia de Oliveira. É mestra das antigas, mulher de têmpera e de roça, hoje descansando de seus combates em merecida aposentadoria, iniciada como professora rural. Começou sua sina no chão forte de Colorado do Oeste, bem ali no coração de Rondônia — terra generosa e bruta onde também vivi  o calor e as estripulias da adolescência, lá pelos idos de 1978 a 1980.
 
Mais de quatro décadas se passaram, o tempo correu céleres léguas, mas sigo na lida. Trabalho na Comissão Permanente de Pessoal Docente do antigo Território, analisando a vida e o direito daquela gente destemida contratada até a véspera da criação do Estado, em dezembro de 81, além dos bravos educadores acolhidos pela tal Emenda da Transposição.
 
Pois bem. No meio daquela burocracia toda, dou de caras com um memorial de emocionar o peito, escrito pela filha da requerente, a doutora Márcia Jovani. A moça, com o coração cheio de orgulho e amor de rebento, fez da história da mãe nada menos que matéria de mestrado e tese de doutorado. Diante de tanta beleza e devoção de sangue, confesso que me perdi em lembranças.
 
Afinal, este escrevinhador também virou mestre rural por puro desígnio do acaso, no ano de 1982. Deixei a enxada de lado, limpei a terra das mãos e peguei no lápis e na caneta para ensinar o pouco que sabia aos meninos e meninas dos colonos meus vizinhos. Com pouco mais de dezesseis anos no peito e nenhuma prática do assunto, lançaram-me ao mundo. Éramos mais de uma centena de rapazes e moças espalhados por aquele sertão afora, de quatro em quatro quilômetros, onde hoje ficam os municípios de Cerejeiras, Pimenteiras, Corumbiara e parte de Colorado d’Oeste. Os mais ditosos ganhavam uma casinha de madeira; os demais se arranjavam como podiam, erguendo a escola num barraco improvisado ou numa tapera abandonada. O que não podia ter era criança sem escola.
 
Para dar conta do recado, no início de 1982, enfrentamos uma quarentena de treinamento da Seduc, aprendendo a lidar com o Pró-Rural, um programa simpático que falava da terra, dos bichos e da vida da gente do campo — coisa bonita de se ver, com um cheirinho bom do pensamento de Paulo Freire. Mas na prática, meu amigo, o mestre de roça tinha que fazer milagres: atender quatro turmas juntas na mesma sala multisseriada, cada menino num módulo diferente. Era um verdadeiro calvário.
 
Para remediar a nossa falta de diploma, veio o tal do Logos II. E vejam só a minha trapalhada: eu, que fora para o front apenas com a quinta série do ensino fundamental — concluída graças ao empurrão valente da saudosa professora Aparecida Castanho D’Orazio —, acabei fazendo o segundo grau antes do primeiro! Supletivo pra cá, correria pra lá, virei essa raridade brasileira de quem se formou pelo avesso.
 
E quem pensa que vida de professor de roça é só ensinar a ler engana-se redondamente. O mestre era também merendeiro, servente, diretor, conselheiro de casais, contador de causo e de contas para os vizinhos analfabetos e, nas horas vagas, ainda servia de escrivão para redigir as cartas de amor dos Romeus apaixonados da redondeza. Outro dia posso pedir autorização ao menos para apresentar um casal afortunado  com minha literatura.
 
Depois de tanto heroísmo, deu  um aperto no peito ao ver o contracheque da professora Ivone. Depois de tanto suor e de uma vida dedicada à educação, a pobrezinha consta aposentada na Classe B, Referência 001, na carreira do Ensino Básico Técnico e Tecnológico — da qual fazem parte os educadores do ensino básico federal , como se tivesse entrado no serviço público ontem. Mas o infortúnio não ocorre só com ela. Quase todos e todas daquela geração padecem do mesmo mal.
 
Uma injustiça de bradar aos céus! O presidente Lula até sancionou a lei para corrigir esse erro histórico com os nossos pioneiros, mas a burocracia é bicho lento e a lei segue sem regulamentação. Por enquanto, é como foto de sorvete em dia de calor: dá uma vontade danada, faz salivar a boca, mas não alimenta ninguém.
 
O drama da educadora Ivone é a sina de quase todos os mestres e mestras daquela época heroica. Enquanto os doutores de Brasília não resolvem o assunto, ficamos nós aqui, com o coração cheio de saudade e esperança, torcendo para que o dinheiro e a justiça cheguem a tempo para essas mulheres e homens usufruírem o merecido descanso na aposentadoria.
Enquanto não vem a justiça, segue aí na íntegra o memorial da professora Ivone, fruto da lavra da filha doutora Márcia, o qual resgata a dignidade de cada um de nós que tivemos o prazer de viver tempos heroicos.
 
DANIEL PEREIRA. Advogado e professor, cujas ferramentas de formação da escola e da roça se misturam.
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