Com amor e admiração três Vezes Dorival, por Stella Caymmi - Por Humberto Oliveira

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Dizem que "quem sai aos seus, não degenera". No caso de Stella Caymmi, escritora e biógrafa, é a mais pura verdade, com cheiro de maresia. Filha de Nana, neta do mestre Dorival, ela não escreveu um, escreveu três livros sobre o avô que fez da Bahia canção. Três vezes Dorival, três vezes amor.
 
"O que é que a baiana tem? – Dorival Caymmi na Era do Rádio", de 2013. Fruto de mais de 70 prosas com o avô e pesquisa miúda feito renda de bilro, Stella mergulha nos primeiros anos de Dorival no Rio. Mostra aquela ascensão que foi quase revoada: em 1938, em poucos meses, o moço baiano ficou famoso com o samba que dá nome ao livro.  
 
 
 
A ideia foi pescar os nós, as tensões da carreira, pra iluminar o que Caymmi tinha de mais dele: o artista e o tempo. "O que é que a baiana tem?" saiu na voz de Carmen Miranda pelo cinema, pelo rádio, pelo disco. E dali Dorival ganhou também o microfone, cantando nas Tupi, Transmissora, Nacional e Mayrink Veiga.  
 
Stella conta com carinho a importância de Caymmi pra Carmen, o café com os colegas, as brigas boas entre artista, rádio, gravadora e jornal. Fala dos intelectuais de esquerda feito Jorge Amado, do empresário Carlos Guinle, dos compositores na luta pelo direito autoral. Gente que foi tempero na formação do mestre.  
 
Nas palavras dela: “Caymmi serve aqui de personagem modelar e, ao mesmo tempo, um guia pelos meandros do período.” É o retrato da Época de Ouro, quando o rádio, o cinema falado e o disco fizeram o samba, o choro e a marchinha reinarem.  
 
Escrito leve, gostoso de ler, é um mergulho original na poética caymmiana. Como disse Francisco Bosco no prefácio, ajuda a gente a entender o lugar de Dorival na nossa música. Lugar de mar, de lua, de bem-querer.
 
"Dorival Caymmi: o mar e o tempo" – primeira edição em 2001, nova em 2014. Indicado ao Prêmio Jabuti, é a biografia mais completa do autor de "Marina" e "Saudades da Bahia". Dez anos de pesquisa, mais de trezentas imagens, e em 2014 ganhou roupa nova, revista e com posfácio fresquinho da neta. Saiu bem no centenário, como presente.  
 
 
 
Vai da infância em Salvador ao Rio, dos sucessos às parcerias, da família aos últimos anos. É a biografia definitiva. Mostra como Caymmi pegou a Bahia, botou na melodia e virou patrimônio do Brasil. Voz grave e doce, canção lapidar, síntese do nosso imaginário.
 
"Caymmi e a Bossa Nova – o Portador Inesperado – 1938-1958", de 2008. Por fim, mas nunca menos importante. Porque Dorival foi “pai” da Bossa antes da Bossa nascer. Nos anos 1930 e 40 já fazia o que o mundo ia aplaudir no final dos 50. Foi pioneiro do voz e violão, daquele jeito íntimo que virou marca da Bossa.  
 
João Gilberto contou a Caetano que “Rosa Morena” lhe deu a batida da Bossa Nova. A síntese rítmica, o modo de tocar violão, tudo ali, em Caymmi. Ele já juntava samba, um tiquinho de jazz e harmonia fina antes de virar moda. Nelson Motta falou: sem Dorival, não teria Bossa Nova nem João Gilberto.  
 
 
 
 
"Marina", "Doralice", "Saudade da Bahia", "Rosa Morena" viraram standards nas mãos de Tom, Nara, João. Em 1958 veio "Canções Praieiras", disco que é Bossa Nova da cabeça aos pés. "O Mar", "Promessa de Pescador", "É Doce Morrer no Mar" com aquele arranjo íntimo, poético, harmônico.  
 
 
Tom, Vinicius, João e Nara eram devotos. Tom gravou, João citou como bússola, Nana fez a ponte entre gerações. Caymmi trouxe o mar, a síntese, o violão de poucas notas e muito dizer. Coisa que João e Tom levaram pro mundo.
 
Jornalista, escritora, biógrafa, pesquisadora da música brasileira e professora universitária. Stella Caymmi é bacharel em Comunicação Social, com mestrado e doutorado em Literatura Brasileira pela PUC-Rio. Já produziu espetáculos, eventos, exposições na Stella Caymmi Promoções e Assessoria. Assinou textos pra Bravo!, República, Petrobras Magazine, Veredas do CCBB, Correio da Bahia, EMI e CELTEC.  
 
No serviço público, entre 1983 e 1986, foi assessoria do ministro Aloísio Pimenta e tocou projetos especiais no Ministério da Cultura, na Fundação Pró-Memória. Pesquisou e escreveu pros livros "O Melhor de Leo Gandelman", "Beto Guedes", "14 Bis" e "Nana Caymmi", da Irmãos Vitale.  
 
É tida como a principal biógrafa de Dorival Caymmi e uma das maiores conhecedoras da obra do avô e da Era do Rádio. E não é por acaso. Tem sangue, tem ouvido, tem respeito. Tem mar.  
 
Três livros, um mesmo amor. Porque Caymmi não se explica, se sente. E Stella soube contar ele com a ternura de quem cresceu ouvindo o violão no quarto ao lado.
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