A confirmação de que Adaílton Fúria perdeu o apoio do governador Marcos Rocha acrescentou um componente importante à disputa pelo Governo de Rondônia. Não se trata simplesmente do fim de uma aliança pessoal. Rocha preside o PSD no estado, justamente o partido pelo qual Fúria disputa o Palácio Rio Madeira.
Foi o próprio candidato quem tornou público o afastamento. Durante sabatina, Fúria afirmou ter perdido o apoio do governador e relacionou a situação, como possibilidade, às divergências envolvendo sua posição contrária à privatização da Caerd. Posteriormente, confirmou o rompimento e afirmou que nem governador, ex-governador ou partido determinaria sua conduta.
A independência política pode ser apresentada como virtude. Mas o episódio também permite outro questionamento: qual poderá ser o custo eleitoral de uma candidatura que, em plena campanha, perde justamente o apoio político que ajudou a sustentá-la?
Esse ponto ganha importância porque a crise não apareceu isoladamente. Nas últimas semanas, veículos locais registraram outros episódios de desgaste dentro da campanha e do próprio PSD, envolvendo saída do responsável pelo marketing, reclamações de correligionários e sinais de dispersão de apoios.
Uma candidatura ao governo não é construída apenas com propaganda e presença do candidato nas ruas. Depende de estrutura partidária, prefeitos, vereadores, candidatos proporcionais, lideranças municipais e capacidade de articulação nos 52 municípios. Nesse contexto, perder o apoio do governador e presidente estadual do próprio partido pode representar mais do que a ausência de uma fotografia no palanque: pode afetar articulação política e mobilização.
Não há, entretanto, evidência suficiente para afirmar que o rompimento já tenha provocado queda nas intenções de voto de Fúria. A pesquisa Veritá realizada entre 14 e 19 de setembro registrou 22,2% dos votos válidos para o candidato, contra 21,1% no levantamento anterior, oscilação dentro da margem de erro de três pontos percentuais. O período da pesquisa também coincidiu parcialmente com a exposição pública do rompimento.
Portanto, transformar a crise política automaticamente em perda de votos seria antecipar uma conclusão que os números disponíveis ainda não demonstram.
Mas existe outra questão, menos matemática e mais política: a confiança.
Se um candidato rompe durante a campanha com aquele que era seu principal apoiador político e que, além disso, preside o seu próprio partido, o eleitor pode legitimamente perguntar o que aconteceu e quais compromissos foram rompidos.
E a cobrança não deve ser unilateral. Marcos Rocha também precisa explicar politicamente por que deixou de apoiar uma candidatura construída dentro da legenda que preside.
Fúria apresenta sua atitude como independência. Seus adversários podem enxergá-la como sinal de ruptura e dificuldade de preservar alianças. Cabe ao eleitor confrontar essas duas interpretações com os fatos.
Há, porém, uma ironia política difícil de ignorar.
Quando a aliança era conveniente, governador, partido e candidato compartilhavam o mesmo projeto. Agora que o casamento político acabou, parece que cada lado descobriu que sempre preferiu caminhar sozinho.
Só existe um pequeno problema: governo não se faz sozinho.
Governar exige construir maiorias, negociar divergências, preservar compromissos e administrar conflitos. Por isso, o episódio coloca diante do eleitor uma pergunta pertinente: o rompimento demonstra independência política ou revela dificuldade de manter compromissos até mesmo com aqueles que participaram da construção da candidatura?
Não cabe ao articulista responder pelo eleitor. Mas cabe colocar a questão sobre a mesa.
Afinal, se uma aliança considerada importante não conseguiu sobreviver sequer até o final da campanha, é razoável que o eleitor queira saber o que aconteceu antes de entregar a alguém um mandato de quatro anos.
E fica a provocação:
Se a criatura nega o criador — ou se o criador abandona a criatura — quem terá de decidir se ainda confia nessa história é o eleitor.
Edson Silveira
Advogado, administrador e professor