O minério percorre uma rede de transporte até compradores e empresas que podem ser utilizadas para dar aparência legal ao produto
Foto: Operação/PF
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Investigações do Ministério Público Federal (MPF) e da Polícia Federal mostram que o garimpo ilegal na Amazônia deixou de ser uma atividade improvisada e passou a operar como uma cadeia organizada, com financiadores, empresários, operadores de máquinas, transportadores, compradores e, em alguns casos, organizações criminosas.
A estrutura começa com o financiamento de dragas, escavadeiras, motores, embarcações, aeronaves, combustível e equipamentos de comunicação. Esses recursos permitem instalar operações em áreas isoladas da floresta, onde trabalhadores fazem a extração do ouro e da cassiterita.
Depois da retirada, o minério percorre uma rede de transporte até compradores e empresas que podem ser utilizadas para dar aparência legal ao produto. Investigações também apontam mecanismos de lavagem de dinheiro e ocultação da origem do minério.
Facções ampliam os negócios
A presença de facções como o Comando Vermelho em investigações sobre garimpo revela a diversificação das atividades do crime organizado na Amazônia. Além do tráfico de drogas, essas organizações podem participar do financiamento, transporte, segurança armada e comercialização de minerais.
A conexão ocorre porque garimpo e narcotráfico utilizam estruturas semelhantes: rios, pistas clandestinas, embarcações, aeronaves, combustível e redes de comunicação.
O controle dos rios é especialmente estratégico. As mesmas rotas usadas para transportar drogas e armas também podem movimentar combustível, máquinas, trabalhadores e minerais. O ouro, por sua vez, concentra alto valor em pequeno volume e pode ser misturado a produtos de origem legal, dificultando o rastreamento.
Trabalhadores ficam na base
Na parte mais baixa da cadeia estão os trabalhadores, frequentemente submetidos a alojamentos precários, jornadas extensas e riscos de acidentes e contaminação.
Operações realizadas no Amazonas já encontraram uso de mercúrio e cianeto, além de estruturas clandestinas e condições degradantes de trabalho. Os danos também atingem a floresta e os rios, com desmatamento, assoreamento e contaminação.
Enquanto trabalhadores assumem os riscos da atividade, os maiores ganhos ficam concentrados nas etapas de financiamento, transporte e comercialização.
Estado mira dinheiro e logística
O combate ao garimpo ilegal passou a incluir, além da destruição de máquinas, investigações sobre patrimônio, empresas, movimentações financeiras e compradores.
Em operações recentes no Amazonas e em outros estados da Amazônia, PF, Ibama, ICMBio, Receita Federal e Ministério Público apreenderam ou inutilizaram dragas, escavadeiras, embarcações, combustível e outros equipamentos.
A estratégia também busca atingir as organizações criminosas pela descapitalização. A lógica é desmontar a cadeia inteira: identificar quem financia, quem fornece equipamentos, quem transporta, quem protege, quem compra o minério e quem movimenta o dinheiro.
O cenário revelado pelas investigações mostra que o garimpo ilegal não funciona apenas como uma atividade isolada dentro da floresta. Ele integra uma economia clandestina que combina mineração, logística, lavagem de dinheiro, controle territorial e, em determinados casos, atividades de facções criminosas.
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