LUIS BUÑUEL - VIRIDIANA - É possível você se apaixonar por um filme só em ler o roteiro?
Comigo foi. Essa foi a terceira vez que eu li esse livro maravilhoso de uma coleção específica sobre cinema publicada na década de 60 - Biblioteca Básica de Cinema - pela editora Civilização Brasileira.
"Luis Buñuel - Viridiana" traz ensaios, análises e resenhas dessa obra prima do cinema mundial, contando histórias do roteiro, de como a distribuição do filme foi difícil após o sucesso e premiação em Cannes em 1961.
Porém, o melhor é o roteiro assinado pelo diretor espanhol Luis Buñuel e Julio Alejandro.
Que história maravilhosa e bem desenvolvida, ao narrar a mudança na vida de uma jovem noviça, Viridiana, que é obrigada a visitar e passar uns dias na fazenda do seu velho tio Dom Jaime. E lá ela vive situações inusitadas que vão transformar a sua vida, tanto religiosa, quanto pessoal, até mesmo mudar a sua visão em relação a Deus após uma tragédia.
O conceito de Buñuel é expor uma crítica social em que expõe igreja e família em uma dicotomia que dá margem para discussões e sugere metáforas que contrapõe a burguesia.
O roteiro é linear e com vários cortes de cenas, todas perfeitas no desenvolvimento dos personagens e motivações, incluindo os secundários, que tem crucial participação na história.
Texto limpo, diálogos naturais e sequências inspiradoras, como o banquete dos mendigos. Cena polêmica que irritou a igreja católica.
Obra de gênio, assim como esse livro. Um documento precioso de um grande filme e um cineasta genial.
O livro do roteiro - que inclui cenas cortadas e ensaios críticos - foi publicado no Brasil pela Editora Civilização Brasileira em 1968, e se trata de uma edição rara, porém pode ser encontrada no site ou aplicativo do Estante Virtual por preços que variam de 35 a 45 reais.
MEU AMIGO DAHMER
Eu ia requentar a leitura desse livro - que na verdade é uma história em quadrinhos, no estilo graphic novel - como um exemplar de cabeceira por dois dias, pra minha grta surpresa não precisou de tanto tempos assim, quando peguei pra ler não deu nem uma hora. Li sem parar. É um dos melhores trabalhos que eu já li, uma obra prima de narrativa, baseada em fatos reais sobre a juventude de um dos mais perversos serial killers da história, Jeffrey Dahmer - ele matava as vítimas, jovens com quem mantinha relação íntima, praticava necrofilia e comia partes dos corpos.
A história aqui não relata seu período criminoso, mas a juventude na escola e como era a sua relação com a família e principalmente na escola da infância até a adolescência, já deixando pistas de como a sua mente perturbada o transformaria. E o relato do autor, o quadrinista Derf Backderf, que, de fato, viveu, conviveu e estudou o período narrado na história com Dahmer.
É uma graphic novel fascinante, não só pela linguagem direta e objetiva, sem delírios e teorias psicológicas, mas por diálogos bem escritos e transmite o comportamento da juventude estadunidense nos anos 70 com um desnudamento perfeito.
Os desenhos cartunescos são maravilhosos, tiram um pouco do peso sombrio da narrativa, mesmo que em alguns momentos são inevitáveis as sombras e ângulos inusitados sob a perspectiva do personagem Dahmer em sua solidão familiar.
Ao final do livro o autor disponibiliza fotos da época da escola do psicopata, além de uma série de fontes de referência que foram além da sua memória. Eu mesmo depois de ler fui atrás dos vídeos referentes e tem um com uma entrevista longa com Dahmer, já preso, ao lado de seu pai, que foi lhe dar apoio, onde ele narra de maneira fria como era a sua relação com a família, com as vítimas, motivações e consequências.
Verifico com isso o peso dessa história em quadrinhos e como o autor se viu obrigado a contar essa história. Pois é como se o seu vizinho com quem você conviveu e estudou na escola durante infância e juventude, quando adulto matou e barbarizou 19 jovens, transformando a casa em que viveu num cemitério.
Essa publicação da editora Darkside é a primeira HQ da coleção Crime Scene. Vale muito a leitura. Recomendo demais e pode ser adquirido no site da Amazon - que tem preços promocionais.
FRONTEIRA DO ALÉM

O desenhista/artista que me levou a amar desenhos e ilustrar foi Jayme Cortez, um luso-brasileiro que foi um mestre de uma técnica no uso da tinta nanquim chamada de "bico de pena" e deixou um legado significativo nas artes, seja ilustrando capas de livros pulp, ou cartazes de filmes (Mazzaropi e José Mojica - o Zé do Caixão - foram exemplos).
Além das HQs, onde ele iniciou sua vida profissional, ou na publicidade, trabalhando em importantes agências no Brasil, Jayme sempre foi considerado um excelente artista.
Cortez é muito lembrado pelo grande Maurício de Souza (criador da Turma da Mônica) por fazê-lo desistir de seguir as histórias em quadrinhos de terror nos anos 60 e investir nas histórias infantis, quando começou a carreira com o cachorrinho Bidu.
Está disponível há algum tempo nas livrarias e pode ser adquirido pela Amazon também essa obra magnífica em que reúne todas as HQs de terror de Jayme Cortez, além de trazer uma curta e bela biografia, focando na sua carreira como ilustrador tem uma boa parte do seu acervo artístico.
É um resgate artístico importante e singular de um gênio português, com alma brasileira. E esse regaste se deve a um de seus grandes fãs, Fábio Moraes, que coleciona peças e ilustrações originais do acervo de Cortez e com a ajuda dos filhos do mestre conseguiu editar essa obra prima.
Parabéns a editora Pipoca & Nanquim por ter produzido e lançado esse livro, com a qualidade notável que justifica como grande lançamento. Capa dura, papel gouché de ótima gramatura. Fantástica edição.