Quinta-feira passada, dia 23 de abril, completou 50 anos do lançamento do primeiro álbum dos Ramones, seminal banda novaiorquina que recebeu o mérito de ser precursora, de fato, do punk rock, intitulado apenas com o nome do grupo. Esse disco se transformou num dos maiores clássicos do rock de todos os tempos, sempre — escrevo e repito — sempre referendado como forte influência à música contemporânea, desde o punk, passando pelo hardcore e até mesmo o metal.
Por incrível que pareça, a banda é citada, de forma recorrente, no papel de principal influenciadora de músicos que criaram outros grupos de rock importantes, como quase toda a cena punk londrina, que o diga Sex Pistols, The Clash e Buzzcocks, ou mesmo o metal, como Metallica, Anthrax e até Motörhead — que fez a música R.A.M.O.N.E.S. em homenagem à banda novaiorquina, nascida no bairro de Queens.
Essa é a minha banda de rock favorita de todos os tempos, minha número um. Antes de ouvir os caras, eu tinha Beatles como a predileta, mas Ramones surgiu na minha vida num período de transição na adolescência que me marcou muito, e o som que eles faziam era tudo: a perfeição de todos os sentimentos da minha rebeldia e fulgás de vida que eu vivia. Só para registro, o “fullgás” vem do inglês full gas, um termo popular que significa “a todo vapor”, viver com uma energia total, ao máximo, e era isso que eu tentava como estilo de vida nesse período conturbado da minha rebeldia teen.
Vale uma pequena história do que representou Ramones e o motivo que me levou a ter adoração por eles. Em 1986, com 17 anos, eu estava no colégio Anglo, no ensino médio, onde passava por um momento difícil, pois sofria pressão em casa do meu pai, já que era o ano em que deveria me alistar para entrar no exército. Então ele me acordava às 05h da manhã para correr nas ruas e depois pagou uma academia para eu ficar em forma. Dizia: “vai servir, tem que estar com o físico perfeito”.
Junte isso aos hormônios em polvorosa, garotas lindas interessadas em playboys, eu nerd, fanático por cinema, revistas em quadrinhos, literatura, música e ainda pintava quadros a óleo no meu quarto. Ou seja, para o padrão dos anos 80 eu era o “esquisito” da turma. Tinha os preceitos da moda que representavam melhor a minha personalidade: eu só andava de preto, cabelos curtos, camisas de algodão, vestia All Star preto e usava calça jeans justa.
Nesse período, a minha música favorita era “Núcleo Base”, do grupo paulista Ira!. Gritava com todas as forças o refrão:
“Eu tentei fugir, não queria me alistar
Eu quero lutar, mas não com essa farda!
Eu tentei fugir, não queria me alistar
Eu quero lutar, mas não com essa farda!”
E foi quando, nesse mesmo ano, eu assisti a um filme pirata no videocassete, “Rock N’ Roll High School”, dirigido por Joe Dante e lançado em 1979. Era uma comédia musical para adolescentes, bem bobinha, mas a trilha sonora tinha Ramones, cuja música-título era deles e, o melhor, eles participavam de algumas cenas do filme.
Eu gostei do filme, mas não pela história, e sim por causa da trilha e por saber quem eram aqueles caras que andavam de preto, com calças jeans justas rasgadas na altura dos joelhos e tocavam um rock acelerado tão pungente e simples, que pegava na veia.
Me encantei com a banda. Em 1986 não existia internet — então não havia facilidade de pesquisa como Google ou sequer existia o termo “site”. O que um jovem como eu poderia fazer para saber mais detalhes sobre os Ramones? Quem eram seus membros? De onde surgiram? Qual a história deles?
Não havia nada que eu pesquisasse nas bancas de revistas — uma publicação sequer — que me trouxesse uma luz sobre a banda.
Porém, naquele ano a gravadora WEA (a Warner, no caso, tinha os direitos da gravadora Sire, que lançou a banda nos anos 70) lançou no Brasil o disco “Rocket to Russia” — a obra-prima dos caras, de 1977. Sim, isso mesmo. E chegou à loja Discolândia — a principal loja de discos em Porto Velho. Comprei. Foi paixão infinita. Lá estavam os nomes dos integrantes da banda. Descobri que a formação era Joey Ramone (vocal e letras), Johnny Ramone (guitarra), Dee Dee Ramone (baixo) e Tommy Ramone (bateria). A mesma formação do primeiro disco deles.
Dessa paixão musical, ela só se solidificou e permanece inalterada até hoje.
Voltando ao primeiro disco deles, que adquiri depois, já nos anos 90, em vinil. Esse é o disco que, quando lançado em 1976, foi um fracasso de vendas, mas a crítica na época amou. Nunca tinha existido uma sonoridade tão urgente, com músicas curtas e influências que vinham de melodias grudentas, como as de girl groups como The Ronettes, surf music (Beach Boys, primeira fase, pré “Pet Sounds”), Beatles mesmo (a primeira fase do pop fácil do quarteto de Liverpool). Mas tudo tocado com aceleração máxima, batida repetida e guitarra com no máximo três acordes, sem solo longo, mas uma porrada pop e hard.
Claro, já existiam antes grupos que tocavam acelerado e que foram pré ou proto-punks, como The Stooges, a banda de Iggy Pop, ou New York Dolls, ou ainda a maçaroca brilhante do MC5 — que em 1968 lançou um disco ao vivo clássico. O comum entre elas era a pegada do blues, coisa que os Ramones não tinham; eles entravam mais nas melodias pegajosas das criações musicais, por exemplo, do produtor Phil Spector — que criou o famoso estilo de gravação em estúdio do “Wall of Sound” (Parede de Som).
Para se ter uma ideia, esse primeiro disco tinha 14 faixas musicais, em uma pegada de jam session única, com Joey Ramone puxando com o famoso “one, two, three and go” e vinha a pancada. Da abertura com a música que se tornou um hino, “Blitzkrieg Bop” — que já tinha o célebre grito “Gabba Gabba Hey” — era uma música atrás da outra, quase sem intervalo para respirar.
A capa do disco, que é uma foto em preto e branco, tornou-se um clássico, imitada, copiada e um marco gráfico, tão simples quanto clássica: os integrantes encostados em uma parede de tijolos, clicados pela fotógrafa Roberta Bayley. Depois, essa mesma foto, trabalhada, tornou-se a capa do terceiro disco deles, “Rocket to Russia” (1977).
Músicas do repertório clássico da banda estão entre as faixas mais importantes, como “Judy Is a Punk” e “I Wanna Be Your Boyfriend”. E foi considerada uma gravação barata para os padrões da época. Com um custo de US$ 6.400, gravaram em um período de uma semana. Além dos integrantes tocarem os próprios instrumentos, a produção musical contou com técnicas expressivas, semelhantes aos primeiros álbuns dos Beatles, como o uso de gravações orquestrais. O disco foi produzido por Craig Leon, com apoio do baterista Tommy, creditado na contracapa como produtor associado.
Logo após o lançamento do disco, ele se tornou um hit na cena alternativa da Inglaterra, sendo uma banda de referência direta para os integrantes das bandas punk Sex Pistols e The Clash, que em 1977 estavam na plateia do mítico show que fizeram em um clube em Londres.
Pena que o disco foi um fracasso de vendas na época nos Estados Unidos, no primeiro ano com apenas 6 mil unidades vendidas, chegando ao número 111 na Billboard 200 norte-americana. Depois de um tempo e da influência musical em bandas de peso, suas reedições passaram a vender muito mais.
Não é sempre que um disco que comemora 50 anos de lançamento, ouvido hoje, soa ainda como novo, atual e imponente em sua criação e importância histórica na música. Para mim, é um dos melhores discos da história, superado por “Rocket to Russia” e o primeiro disco do Velvet Underground — que vai virar tema de outro texto.