Os conflitos do século 21 deixaram de ser travados apenas com armas e exércitos em campo. Cada vez mais, governos, grupos organizados e atores não estatais recorrem a um conjunto de táticas invisíveis políticas, jurídicas, tecnológicas e psicológicas para influenciar decisões, desestabilizar adversários e conquistar poder. Esse fenômeno é conhecido como guerra híbrida.
Entre os principais meios não militares está a interferência em processos eleitorais e institucionais. Especialistas apontam que grandes operações jurídicas e campanhas coordenadas podem ser usadas para pressionar empresas, governos ou lideranças políticas, afetando diretamente a confiança pública e o funcionamento das democracias.
Outro pilar central é a guerra psicológica, cujo objetivo é enfraquecer a vontade do adversário antes mesmo que um conflito armado ocorra. Para isso, são empregados recursos como propaganda, dissimulação, falsificação de informações, sabotagem e operações de informação e contrainformação. A estratégia envolve profissionais de diversas áreas de psicólogos e linguistas a especialistas em comunicação e cibersegurança capazes de desenhar narrativas e manipular percepções.
O ciberespaço tornou-se um campo decisivo. Plataformas digitais, redes sociais e sistemas de dados permitem a disseminação rápida de conteúdos que moldam comportamentos e opiniões, ampliando o alcance da chamada “manipulação cognitiva”. Ataques virtuais e campanhas coordenadas podem, em pouco tempo, interferir em economias, instituições e relações sociais.
A guerra híbrida também opera por meio de agentes por procuração. Em muitos casos, conflitos são conduzidos indiretamente, com grupos intermediários inclusive populações civis atuando, consciente ou inconscientemente, para alcançar objetivos estratégicos. A força dessa dinâmica está justamente na dificuldade de identificá-la.
Em síntese, a guerra híbrida integra todos esses elementos para manter os dispositivos militares no centro das decisões, ao mesmo tempo em que permite que o Estado e também atores não estatais atuem em múltiplas frentes, dissolvendo fronteiras tradicionais entre paz e conflito. O resultado é um cenário mais difuso, discreto e, muitas vezes, mais difícil de detectar e combater.