POR DANIEL PEREIRA: Marcos Rocha é a nefasta herança de Bolsonaro para o povo de Rondônia

O governo elevou o imposto de 18,5% para modestos 21,5% e só recuou diante de muita pressão

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Em poucos dias, encerra-se o mandato do bolsonarista Marcos Rocha. Diferentemente de quase todos os seus antecessores — homens que enfrentaram dificuldades monumentalmente bíblicas para governar, Rocha deixará o Palácio do Governo sem aquele incômodo hábito de legar algo de útil para o seu sucessor.
 
Descontando-se Jorge Teixeira e Ângelo Angelin, nossos dois primeiros governadores, nomeados na época em que o voto era um mero detalhe dispensável, a verdade é que todos que sentaram na cadeira de governador deixaram ao menos uma marca para contar história.
 
Vejamos o resumo da ópera. Jerônimo Santana e Orestes Muniz (1987-1990) suaram a camisa para consolidar o jovem estado, erguendo hospitais, escolas e socorrendo os municípios. Oswaldo Piana e Assis Canuto (1991-1994) tiraram o rondoniense do breu ao esticar os cabos da Usina de Samuel até Cacoal. Valdir Raupp e Aparício Carvalho firmaram a célebre parceria com o Grupo Maggi para escoar a produção pelo Rio Madeira — jogada de mestre que viabilizou a agricultura no Mato Grosso e puxou a de Rondônia a reboque, que até então vivia basicamente da couve do quintal.
 
José Bianco e Miguel de Souza criaram a Idaron, sustentáculo do nosso hoje poderoso setor pecuário. Ivo Cassol e Odaisa Fernandes (e, posteriormente, João Cahulla) notabilizaram-se pela sanha de rasgar, pavimentar e conservar rodovias. E Confúcio Moura e Airton Gurgacz (e, depois, Daniel Pereira) modernizaram a máquina pública, além de criarem a maior feira agropecuária do Norte para mostrar o estado ao resto do planeta.
 
Todos esses governadores tinham algo incrivelmente curioso em comum: tentaram entregar o estado melhor do que o encontraram. Mais do que isso, elegeram-se por conta própria, ostentando o próprio nome e CPF na cédula sem precisar de muletas eleitorais alheias.
 
Já o atual mandatário teve a proeza inversa. Eleito na onda do bolsonarismo, pegou o estado na melhor situação financeira de sua história e conseguiu atravessar oito anos de gestão sem inaugurar absolutamente nada de novo. Pelo contrário: colecionou retrocessos. Viu despencar os índices educacionais, deixou afundar o barco que prestava serviços essenciais aos ribeirinhos do Vale do Guaporé (de Guajará-Mirim a Pimenteiras), perdeu os recursos para a construção do hospital regional de Ariquemes, não aplicou recursos para a pavimentação de 160 km da rodovia do Boi, ligando Corumbiara a Parecis  e, embora seja oficial da Polícia Militar, não foi capaz de realizar um único concurso para selecionar, treinar e contratar novos policiais para proteger a população. A coisa é tão pitoresca que o último concurso da PM foi realizado por Confúcio Moura em 2014 — transformando a nossa corporação em um raríssimo exército sem soldados.
 
Mas não sejamos injustos: há traços que tornam o governador verdadeiramente único. É bem provável que existam municípios rondonienses onde ele nunca colocou os coturnos, mas o seu passaporte ostenta mais carimbos de aeroportos internacionais do que o de um diplomata de carreira. Tudo, claro, acompanhado de uma vistosa comitiva de assessores alimentados por suculentas diárias em dólar. O detalhe? Ninguém jamais viu uma foto, ouviu um discurso ou soube de um único centavo de investimento atraído para o setor produtivo nessas andanças pelo globo.
 
Outra façanha memorável foi o inexplicável tarifaço do ICMS em 2023. O governo elevou o imposto de 18,5% para modestos 21,5%, recuando para 19,5% somente após uma ruidosa gritaria dos empresários e da sociedade civil.
 
E, como se as regalias do mandato não bastassem, o governador fez aprovar uma lei estadual garantindo a si mesmo veículo oficial, combustível, assessores e diárias pagas pelo contribuinte durante quatro anos após deixar o cargo. Um verdadeiro escândalo. Qual categoria de trabalhadores no Brasil ostenta semelhante mordomia?
 
Para completar o quadro, diante de um cenário futuro de arrocho para a classe trabalhadora, o governador — mesmo sem direito a aposentadoria ou pensão de ex-mandatário — tratou de reajustar o subsídio dos oficiais da PM, garantindo um contracheque padrão de governador pelo resto dos seus dias.
 
Para quem tem memória curta, estamos falando da única "obra" deixada por Jair Bolsonaro em Rondônia — se descontarmos o aterro da ponte sobre o Rio Madeira. Resta-nos torcer para que, daqui a quatro anos, quando formos avaliar a gestão de Marcos Rogério, a análise possa resgatar a boa tradição dos nossos antigos governadores: a de quem passa pelo governo e deixa alguma coisa de bom para o nosso povo.
 
Daniel Pereira, Professor, advogado e ex-governador de Rondônia (2018).
Direito ao esquecimento
Celso Nobre - 16/10/2026 15:41
Espera pra ver o tal do Marcos Rogério. Aí voce vai ver o que é herança maldita do bolsonarismo para Rondônia. Tenho até dó desse povo.

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